quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

E agora o Haiti







Meus amigos... Talvez não seja tão fácil actualizar o blog como eu gostaria... e talvez nem seja pela lentidão e constante bloquear da internet do local onde fiquei sitiado. Provavelmente mais pela minha incapacidade de conseguir lidar com as palavras para descrever o que vou vivendo... o que vou sentindo.
Cheguei ao Haiti... a viagem foi só por si longa...
Parece que este meu dia durou 2 semanas. Chegamos num voo das Nações unidas via Republica Dominica. atulhado de voluntários e organizações inetrnacionais a caminho do alívio dos Haitianos.
Confesso que encontrei a capital mais viva do que imaginava... O trânsito é caótico, as pessoas mexem-se na rua com uma pressa de quem procura para onde ir. Nem toda a cidade caiu...
Ao chegar à cidade, no avião, viam-se as colossais feridas abertas que o sismo deixou nas montanhas que resguardam Port-au-Prince... Descrevo-as como que o próprio diabo tivesse tentado sair do inferno deixando as marcas das suas unhas bem empregnadas nos montes...
Na viagem até ao nosso quartel-general, de boleia com uma amiga da associação, num jipe demasiado pequeno o seu conteúdo, vislumbramos pela primeira vez, nas habitações desta gente desalojada, o devastador poder do que aqui aconteceu no dia 12 de janeiro. Descreve-lo em palavras torna-se impossivel... Parecem apenas legos cimentados e amontados. Dúvido que não continuem ainda centenas de cadáveres sepultados por baixo dos mesmos. Existem milhares de tendas espalhadas pela pequena área que percorremos.
Pouco de Médico fiz... Montei a tenda e tentei perceber o que se passa aqui afinal... Esta gente precisa TANTO de gente para ajudar... Sob todas as formas possíveis de imaginar... Tudo aquilo que assumimos garantido e básico desapareceu.. Onde buscar água? comida? WC? onde vão ser as aulas? onde se vão formar pessoas? Dizia-se aqui que não há taxa de desemprego mas sim de emprego... e que essa sim é baixa...
Meu Deus.. Obrigado a todas as pessoas que possibilitaram que viessemos aqui... E que permitam que a ajuda chegue...
O cheiro a morte terá dissipado no calor sufocante das caríbas... Agora cheira-se o desespero... A falta de recursos... Onde irá nascer o menino na barriga daquela senhora? Serei eu a trazê-lo ao mundo...
A natureza será mais o mais próximo da imagem que tenho dos poderes de Deus, capacidade de dar tudo e de tudo tirar...

Ricardo

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A associação que permitiu a ajuda....

O país ao lado

Estou já no país ao lado do que vou ver amanhã. O cenário de onde vos escrevo estas linhas é caricato. Estou no terraço do hotel onde um homem de meia idade canta alegremente várias músicas merengue... A viagem decorreu sem problemas de maior tirando o facto que quase não chegava a tempo ao aeroporto de Lisboa.
É impressionante a logística que se encontra no aeroporto enquanto que parece também que a república Dominicana passa ao lado da enorme tragédia que se vive aqui ao lado... A música não pode nunca parar. Esta boite improvisada confirma isso mesmo...
Vou guardar as minhas horas de sono numa cama como se fossem o maior tesouro das caraíbas...
Amanhã partimos para o inferno...

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

A viagem começou...

1ª Etapa - Saí de Coimbra por volta das 20h. O querido do meu pai foi-me buscar e depois de termos levantado os quase 92 kg de material (medicamentos, instrumentos, fitas de combur, fitas de glicémia e glucómetros, etc) saimos em direcção ao Haiti. Bem sabido que a minha primeira noite de viagem vai ser na Nazaré.. Curiosamente a cidade onde nasci... Será significado de um renascer?
Ao chegar a casa vi esta magnífica orquídea branca e não pude deixar de me sentir tranquilo. Quase como um supersticioso sinal de calma e paz, vi nestas flores um prenúncio de bons ares... E eu que costumo ser o mais céptico da sala...
As mensagens de apoio têm vindo de todo o lado e isso faz-me sentir como que não seja eu que vá para o Haiti mas todos os que me apoiaram -  a S., a B., a G., o M., a C., o P., a R., a M., e muitos muitos mais...
Espero que no momento de ter força, ela se multiplique por todos e que o bem que traga ao povo Haitiano reflicta o desejo generalizado.
Difícil foi despedir-me da minha Cláudia... O olhar doce e triste dos seus olhos verdes deixaram-me de guarda descida. Meu amor... logo logo eu volto...

domingo, 7 de fevereiro de 2010

A 40 horas da partida


Faltam cerca de 40 horas para a viagem... Por vezes o meu corpo não acompanha a minha mente. Apetece-me ficar mais um pouco no sofá ao invés de ir comprar as últimas coisas. A minha cabeça faz, continuamente, uma check-list, frequentemente interronpida pelos meus sentimentos antes da partida... Não levo muita roupa. Tentei limitar ao máximo as coisas a levar para que os volumes que a Iberia nos deixa levar a mais sejam todos utilizados com medicamentos e bens que deverão ser essenciais para a missão. De superfluo vão também dois chouriços, pedido expresso do Ricardo Marquez que já lá está.
Continuo também com flash imaginativos do que vou encontrar e se por vezes acho que tudo vai ser mais tranquilo do que imagino. No entanto, raramente, tenho tanto medo que parece que o meu estômago vai sair-me pela boca... Aí penso no que me levou a abraçar esta aventura e lentamente o ritmo cardíaco traqnuiliza, como que um bebé ao colo da mãe...

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

O meu nome é Ricardo e sou médico na região de Coimbra. Irei partir para o Haiti na próxima terça-feira numa missão Humanitária. O apoio e logistica é feito pela Saúde em Português, uma ONG sediada também em Coimbra.
O objectivo deste blog é transmitir, caso me seja possível, o lado doce da tragédia. Os sons e sorrisos, ou dores, do Haiti. Será a minha primeira experiência no terrena após uma catástrofe destas dimensões. As incertezas são muitas. Não ultrapassam no entanto a certeza e o instinto de ajudar. Nunca estive tão certo de nada... Estes primeiros dias têm sido uma correreria. Reuniões, preparar mochila, lidar com os previsiveis (faltam os imprevisiveis) da minha ausência. abraçar de quem vou estar longe...
Tenho que agradecer à Cláudia o gigantesco apoio, à minha irmã Silvia (a melhor mana) e ao meu pai pela ajuda e desculpar-me pela preocupação que lhes vou dar.
Aos que lerem os relatos, caso eles cheguem de facto a vós, espero que as palavras se transformem em sentimentos e em última instância, de os transformar em actos de ajudar.
Vou dando notícias...